Discos, livros e pano pra manga

Published on julho 24th, 2012

Por Andreas Rauh

“Música é a literatura do coração, ela começa onde a fala termina”  (Alphonse de Lamartine)

Nem só de disco vive uma boa estante de música. Esse é um clichêzão, tão batido quanto motoqueiro ouvindo Led Zeppelin no rolê de Harley domingo à tarde com a patroa na garupa. Mas é pra mostrar como é claro a importância de ler coisas boas e consistentes; ainda mais se for sobre música ou artista que você gosta.  Então faça como o Offspring recomenda: sente, relaxe, tire seus sapatos, abra uma garrafa de vinho, coloque um disco ou uma seleção musical longa pra tocar e aproveite, afinal música acalma até a besta mais selvagem.

Há quem argumente que, assim como o “bróder róque”, o eletrônico é mais do que um estilo de som: é um estilo de vida. Os escritores e editores ingleses Brewster e Broughton são desse partido e no Last Night a Dj Saved My Life  focam na vida do discotecador e sua influência no desenvolvimento da música pop no século 20. O título é inspirado na faixa do Indeep e mostra o quanto eles puxam a sardinha para a brasa dos jóqueis. É interessante que os autores não se apegam a um estilo musical único, muito pelo contrário. A história começa na década de 30 e mostra que o DJ é parte fundamental do desenvolvimento da rádio comercial, passa pelo dub Jamaicano e as discotecas Americanas dos anos 70 (quando nasce o House em Chicago e o Techno em Detroit). Na sequência os tocadores de vinil chegaram em Nova Iorque e ganharam vida nova nas mãos dos revolucionários do Hip-Hop, que elevaram o nível técnico para a virtuosidade digna de um Hendrix com fones de ouvido.

Uma das melhores partes do livro é a quantidade de informações vindas diretas dos artistas. De fato a pesquisa foi tão intensa e profunda que acabou gerando o The Record Players – Dj Revolutionaries. Esse segundo volume traz as transcrições das entrevistas usadas pro primeiro livro. São 46 ao todo, variando do pioneiro John Peel da BBC até super estrelas atuais como Tiësto. Recomendo dar uma olhada na lista completa dos entrevistados porque certamente vai ter alguém que toca alguma coisa que te interessa.

O trabalho de Brewster e Broughton foi tão exaustivo e acertou tanto na veia que inspirou a jornalista brasileira Cláudia Assef a fazer uma ‘versão nacional’ chamada Todo Dj Já Sambou. É leitura obrigatória pra entender como foi o desenvolvimento da atividade de discotecador no Brasil. Não é tão analítico quanto seu parente gringo e em alguns momentos acaba revelando mais do conhecimento anedótico e pessoal da autora do que qualquer outra coisa. Parece até que ela mesma dá uma sambada (piada interna que reflete um dos erros mais comuns dos DJs, não sincronizar duas músicas faz um som parecido com a batida sincopada de um, ah ham, ‘samba’). Esse conhecimento de primeira mão acaba sendo a principal razão pela qual o livro foca mais na cena eletrônica, e pouco do rádio, por exemplo.

O mesmo foco na vida eletrônica está no Generation Ecstasy de Simon Reynolds. A diferença é que Reynolds faz um trabalho primoroso em descrever a vida e a música nos clubes e raves da Inglaterra no final dos anos 80 e começo dos 90. Além de ter conhecimento de quem esteve lá, ele tenta realizar o quase impossível: explicar para seus leitores leigos as diferenças entre os infinitos subgêneros de música eletrônica. O que é Techno? E o House? Se você misturar os dois sai Tech-house? E se tiver uma pegada de Gabba com Garage e Grime no meio? Sacou a bucha que o sujeito topa? Além dessa Herculeza ele ainda apresenta uma discografia sugerida selecionada a partir dos estilos e artistas mais significativos. Ufa.

Nem tudo no livro é descritivo. Uma das melhores sacadas de Reynolds é quando ele afirma que o conflito de gerações expresso na música é algo inevitável e, pasme, sempre usa os mesmos argumentos não importando a data ou estilo. No final das contas os velhinhos reclamam que a música da molecada ‘não é música’, ‘só barulho’, ‘não tem a mesma energia’, e que ‘no meu tempo era melhor’ porque ‘isso não dá pra dançar’ e bla bla bla. Essa ladainha começou já com o Jazz lá na década de 20 e continua até hoje.

Mark Prendergast é outro que olha pra mudanças e constâncias na música do século 20, mas faz isso para contextualizar historicamente. Ele se preocupa em achar o que considera o estilo ou característica mais importante da música contemporânea. Em The Ambient Century ele conclui de maneira intrigante ao afirmar que o som que fala mais alto sobre o nosso tempo é na realidade o que menos fala; ou o que se propõe a ser o mais discreto: música ambiente. Mas muita calma nessa hora. Não estamos falando daquilo que toca no elevador ou na sala de espera. O que o Prendergast defende é que o som ambiente, como o que foi feito pelo Brian Eno, é meio que a anti-música, e esse contraste é o argumento central.

Anti-música parece coisa de besta, e aquele disco ou seleção musical que você colocou pra tocar lá no começo deve estar no final da segunda faixa, ou quem sabe já na terceira. Mas isso é papo pra outra hora e não precisa virar um livro. Ainda.

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